segunda-feira, 26 de junho de 2017

Bêbado

(Inspirado no poema inacabado de Pâmela Oliveira)

Desfrutando, cria e imagina
seus versos de fundo de copo de conhaque
e os recita o bêbado
à escada, balbucia alguma coisa
caindo.

E conversando com seu amigo
(ou seria sua amiga?)
vê a tudo e a todos e ao mundo
girando.

Desfrutando de sua bebedeira
pergunta a seu copo e espera uma resposta
o bêbado de gravata
sem paletó
o bêbado caindo
e girando.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Equinócio

Sol nasce
você vem
o sol se põe
você vai
cheiro de primavera
cabelos de outono
olhos negros como água
olhos claros como a noite.

Você vem
o sol nasce
você vai
o sol se põe.

Brota das várzeas
e dos bosques
se lança para fora da terra
às vezes sorri
às vezes não.

Floresce, chove,
fenece e murcha
e às vezes volta a florescer.

Galhos secos
folhas secas
pinhas secas
você vem
e os galhos se quebram.

Seu sorriso
que nasce sorrindo
é flor de laranjeira
é gorjear dos pássaros
é pinha de araucária.

E brinca de equilibrista
nas trepadeiras e nas vinhas.

É Iemanjá
é jacarandá
ipê e roseira
eu sou o fungo parasita
eu sou o baobá
que cresce sozinho 
no meio da savana.

Você vem
meu tronco arria-se
você vai
minhas folhas caem.

Você vem
primavera começa
você vai
outono termina.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

De Que Vale Ter Coração?

De que vale ter coração,
se não compra colar de prata
banhado a ouro,
não compra alianças,
não compra apartamento,
nem pérolas ou diamantes?

De que vale ter coração,
se sua luz não ilumina,
só faz penumbra?

De que vale ter coração,
se é apenas passageiro
e não o condutor?

De que vale ter coração,
se bombeia apenas sangue,
se não bate a dar-se lucro,
se riqueza é ter dinheiro
e nenhum dinheiro
dele provém?

De que vale ter coração,
se não se pode comprar vida
escrevendo poesia?

De que vale ter coração?
Se ao final do dia,
dados as alegrias e tristezas,
somados os poemas,
empilhados os sentimentos,
esquecidas as palavras,
engolidas as mágoas,
enrustidos os desejos,
meu coração não vale nada.