sábado, 20 de novembro de 2021

Espírito Fraco

Tão fraco quanto a carne é o espírito
que à visão de você fica rijo e perde o arbítrio
e o sentido e a direção
deixa meu corpo para viver impossibilidades
com a versão sua de minha criação
se ergue do caixão em oração
para contemplar por um minuto
a crueldade de sua perfeição.

Mas da areia em que você pisa eu sou um grão
entre outro milhão que se amontoa à sombra de teu pé
mantenho a fé em ser ouvido chamar
com meu grito abafado pelo barulho do mar
me misturo ao sal e a teu corpo
quando você entra a nadar.

E toda barreira de distância ou sensatez
a estupidez de meu desejo afronta
quando minha alma se desmonta
a atravessar serras e fronteiras
seguindo o sol a caminho do mar
sem ter a certeza que conseguirá te encontrar.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Zabelê

Desperto e a manhã não é mais bela
é morto o sabiá que cantava à minha janela
e pelo tronco foi cortado o ipê amarelado
e o tempo que corria agora já não anda
é morto o sabiá que pousava em minha varanda
e eu pergunto ao tempo se porventura
ele sente prazer em minha tortura
por que me acordou se eu não ouvia
meu sabiá a cantar me dar bom dia
por que me deixar acostumar
me despertar o sabiá
se vai matá-lo e depená-lo 
sem ao menos me avisar?

Nunca eu pensei em te prender numa gaiola
nunca me ocorreu tirar teu ninho lá de fora
você sempre foi livre para voar embora
mas não me avisou que era chegada a hora
de eu nunca mais te ver
mas meu sabiá, meu zabelê
toda meia noite eu sonho sempre com você.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

A Queda

Da boca do poço de pedra
me jogam a corda com um olhar que despreza
mas do topo é impossível compreender a queda 
e toda vez que a chuva se anuncia
o céu de anuvia e se enche o poço
e a água que meus tornozelos cobria
me chega agora até o pescoço 
e toda vez que treme a terra
não berra minha voz a clamar por ajuda 
nem no mais cruel terremoto
nem na mais inclemente chuva
eu pensaria em deixar 
a profundeza que me enterra
e se faz o sol uma sombra 
projetar-se ao redor de minha treva
de um coração nobre que de mim se apieda
não lhe explico por que não aceito sua corda
pois do topo é impossível compreender a queda.