segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Outras Coisas

O miado do gato, tirar o sapato
O gosto do mel e o fragor de hortelã 
O sol na janela, o pó de canela 
O cheiro do mate pela manhã 

A sensação que me invade em dias que chove
O vento que bate e a araucária que se move
Chutar a pinha perfeita na calçada
Pisar sobre a folha seca esfarelada
O açúcar do sonho de goiabada
A manteiga na broa de milho tostada 
O frescor enganador das manhãs de janeiro
O eco do canto no box do chuveiro
A crosta crocante do bolo de cenoura
A poeira expulsa pela vassoura

O ronronar do gato, desamarro o sapato
Uma torta de banana ou de maçã
A grama congelada pela geada
O amargo do mate de manhã.

quinta-feira, 27 de julho de 2023

Terra Arrasada

A terra queima
e eu sou só lenha na fogueira
somos lixo do oceano
somos ferro e fumaça
somos bomba nuclear
e a terra queima

Como é difícil gritar quando arrancaram sua boca
como é difícil agir quando seu destino é a impotência
como é difícil se importar quando nada tem importância
como é difícil sentir frio quando a terra queima

Eu sento e espero o inverno nuclear
assisto ao pôr do sol até dois sóis se pôrem
semeio meu trigo no solo de uma terra arrasada
e eu sento e espero que ele cresça
mas não há futuro
não há futuro.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Garganta

Tire as mãos de minha garganta
tire o nó de minha goela
eu não enxergo quase nada
está derretendo a aquarela
você senta em meu peito quando durmo
me sufoca com o travesseiro pra acordar
minhas mãos não são mais minhas quando tremem
meu pé já não é mais meu ao formigar
vou cair morto a qualquer instante
vou ver estrelas e vou vomitar
vou perder todo controle do meu corpo
e não há ninguém que possa me salvar
mas quero gritar por socorro
me atirar ao solo em convulsão
mas você abafa o meu grito
você não tira de mim a sua mão.

Eu sou pequeno, frágil, minúsculo, incapaz
qualquer brisa me carrega às tuas garras de Satã
e você larga minha garganta e diz
que vai voltar amanhã.

domingo, 29 de janeiro de 2023

Minha Casa

para L.M.

Minha casa é quente e infestada de formiga
mas entre e fique todo o tempo que precisa
Quando chove tem goteira e dá pra ver a infiltração
se se apoia na parede fica tinta em sua mão.

Quando tropeço lá na sala levo o tombo na cozinha
mas eu sempre arrumo espaço onde antes tralha tinha
Da porta do banheiro só não funciona a tranca
e a fronha em que se deita um dia já foi branca.

Das quatro bocas do fogão só consigo acender uma
mas um banquete eu te preparo sem reclamação alguma
Da campainha não sai som quando alguém aperta
mas para você a porta sempre estará aberta.

Se dá pra vir visita a gente vê depois
não sei se cabem três, mas sei que cabem dois
Minha casa é quente e infestada de formiga
mas você bem sabe o amor que ela lhe abriga.

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Amargo

Pela manhã me acorda um sol amargurado
ainda sinto em minha boca o gosto amargo
de mais um sonho que é mais dela do que meu
mas o torturado que o sonha sempre sou eu.

Ela saltita por minha mente dormente inconsciente
e deixa atrás de si seu rastro que não míngua
seu cheiro em meu nariz e seu gosto em minha língua
pelo chão os restos do aborto clandestino
de um amor interrompido em sua gestação.

É amarga a memória do brevíssimo momento
em que ela foi só minha, em que nada mais existia
em que a terra pediu licença ao tempo e interrompeu seu movimento
e todas as hipérboles dignas da pessoa amada.

É muito mais amargo que o último trago
daquele cigarro barato que lhe pedi emprestado
e que nunca devolvi
mais amargo que café não adoçado
que o gole de erva-mate antes de inchado o ramo
mais amargo que o chá de boldo chileno da ressaca
é ser lembrado toda noite o quanto eu a amo.

É saber que meus braços nunca mais irão segurar
seu corpo esguio, branco e alto novamente
é ela olhar por através de mim como se eu fosse transparente
é lhe implorar que me deixe sonhar em paz
e eu lhe imploro, eu lhe insisto
pare de fingir que eu não existo.

sábado, 4 de junho de 2022

Juliana

Uma faísca que acende uma candeia
uma reação em cadeia, uma fogueira
que queima uma floresta e meia
é sua boca que me toca
é seu olhar que me provoca
um eterno morrer e ressuscitar.

Você é sonho sem despertar
é uma eternidade comprimida num instante
mas que dura tempo bastante
para ser impossível de esquecer.

É um severo destino do qual é inútil se esconder
é a fotografia que levo junto ao peito
pois não há outro jeito de te eternizar
mas se eu fosse o senhor dos céus e do inferno
eu tornaria aquele momento eterno.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Poema de Helena

Pela manhã me acorda uma centena
de olhos puxados de Helena
que meus sonhos vigia
que é parte do raiar o dia
e que transpira poesia
é Helena a acordar.
 
Vejo o céu da manhã e a certeza é plena
de que o céu é uma aquarela de Helena
a melodia do canto da gralha me encanta
pois tenho certeza que Helena é quem canta
e quando cai a tempestade
sei que é ela a trovoar.
 
E ela está comigo onde quer que eu vá
já que eu não existo nos momentos onde Helena não está
e por ela eu me aventuro a chorar em verso
em um poema que contenha todo o amor do universo
mas sem ser de minha autoria, e eu sofro a pena
pois este poema não é meu
este poema é de Helena.