segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Amargo

Pela manhã me acorda um sol amargurado
ainda sinto em minha boca o gosto amargo
de mais um sonho que é mais dela do que meu
mas o torturado que o sonha sempre sou eu.

Ela saltita por minha mente dormente inconsciente
e deixa atrás de si seu rastro que não míngua
seu cheiro em meu nariz e seu gosto em minha língua
pelo chão os restos do aborto clandestino
de um amor interrompido em sua gestação.

É amarga a memória do brevíssimo momento
em que ela foi só minha, em que nada mais existia
em que a terra pediu licença ao tempo e interrompeu seu movimento
e todas as hipérboles dignas da pessoa amada.

É muito mais amargo que o último trago
daquele cigarro barato que lhe pedi emprestado
e que nunca devolvi
mais amargo que café não adoçado
que o gole de erva-mate antes de inchado o ramo
mais amargo que o chá de boldo chileno da ressaca
é ser lembrado toda noite o quanto eu a amo.

É saber que meus braços nunca mais irão segurar
seu corpo esguio, branco e alto novamente
é ela olhar por através de mim como se eu fosse transparente
é lhe implorar que me deixe sonhar em paz
e eu lhe imploro, eu lhe insisto
pare de fingir que eu não existo.

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