quarta-feira, 24 de maio de 2017

Amargurado

Ao meu apelo
tu respondes com silêncio.
Reconfortante.
Engasga-te com seu silêncio.

Faça de tuas poucas palavras
a minha sentença de morte,
para que eu fique tão morto
quanto teu coração.

Não te preocupes em me enterrar,
nem em me levar flores,
já me deste em vida
o pior de teus espinhos.

Engasga-te com tuas mentiras,
com teu descaso,
com teu orgulho.

E dizes que me amas,
dizes que serei para sempre teu;
à merda com tudo isso.
Já me provaste que não é verdade.
À merda com tudo isso.
Serei somente, para sempre
amargurado.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Fumaça

A fumaça densa desenha carros;
e os carros densos, em denso movimento,
fazem do céu sua pintura
de fumaça sobre tela.

Seus pulmões aspiram e cospem poeira,
e tumores passeiam por suas teias
de tabaco e nicotina.

E diante do vasto vazio de tudo isso,
não há deuses que retenham
o poder da salvação
da insignificância.

Só há fumaça,
que rodopia pela via láctea;
pelo imenso vale da morte do universo,
só resta a lembrança
daquilo que já foi vivo.

Diante do vasto vazio de tudo isso,
cada qual é Deus
diante do vasto vazio
de si mesmo.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Tijolo Por Tijolo

Tragam
as pás,
o cimento e
a argamassa, liguem as
ligas, entortem as vigas, empilhem
as tristezas com cimento e areia,
façam trincheiras de concreto, e construam
a muralha ao redor de mim, tijolo por tijolo.
Dê-me o martelo, deixa-me quebrar
esta muralha mórbida e fria, me
deixe derrubar este muro de
lamentação inútil e indulgente,
deixe-me destruir
tijolo por
tijolo.