segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Olhos Tortos

Onde andam agora seus pés
que outrora pisavam nas mesmas poças
que encharcam os meus?
Salões europeus, os passos teus
encantam aos moços e invejam às moças.

Teus pés sequer ainda andam?
Sequer sabem que ainda chamam
quem passar, quem passou
e quem não passa mais,
a tanto tempo atrás
e nem se lembra mais
da alma que roubou.

Que venha a mim então
teus olhos tortos,
teus amores mortos,
e irei com prazer perdê-los
deixá-los e esquecê-los
no meio da multidão.

Meu amor, que seja breve,
minha vida toda, por onde esteve
por onde vai andar
e onde, o resto dela, irá passar?

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Para Meu Pai

Pai,
odeio ouvir-te falar sobre política,
praguejar sobre qualquer religião que não seja a tua,
diminuir e desdenhar outras culturas
e não entender nada do que digo.

Pai,
sei que você merece 
mais do que esta poesia torta;
amo-lhe mesmo que seja
um tapado, conservador intolerante,
e rogo-lhe perdão por ter sido
o fruto podre de tua horta.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Pétala

Para Pâmela Oliveira

Você, pétala mais delicada
da flor da vida;
me disponho a ser teu jardineiro
e podar as ervas parasitas
que aglomerarem-se à tua sombra.

Do mar em que pesco e me aventuro
você é a rainha que reina sobre as ondas,
que rege as marés
e me deixa desfrutar
das maravilhas de suas águas;
sou minha oferenda para você,
minha Iemanjá.

Minha mulata, minha morena,
minha nega, minha amada;
desculpe-me por não conseguir
superar amores passados,
por não saber resistir
aos encantos de qualquer Maria,
e que Deus lhe perdoe
por dar seu coração
a quem não o merece.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Hidra

Perdoa meu olhar que não consegue
sair de você
e eu perdoo o teu olhar
por me roubar o sono
à noite toda.

Teu rosto e teu corpo
são paisagem do Oriente
e desafia aos meus tristes
olhos europeus
a decifrá-los.

Teus lábios pouco expressivos
não cobiçam os meus
que só fazem te cobiçar.
Minha cobiça sussurra
onde termina teu cabelo,
mas você nunca nem
dignaria-se a ouvir.

Eu talvez não seja mais que uma abelha
atraída pelo pólen 
do teu cabelo cor de mel.
E meu voo você derruba
com tua voz cantora,
com tuas mãos que fazem vibrar
as cordas que me enforcam.

Se eu fosse diferente, quem sabe,
você me enxergaria.
Quem sabe, fosse eu mulher
fosse menina, moça, guria,
ganharia atenção das tuas pupilas
por trás das tuas lentes.

Quem dera eu pudesse
fazer-me ser notado;
à sombra das cores do teu cabelo
minha alma enferma
descontenta-se em ser amada.