segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Fluxo

Meu eu fluxo consciente
de água verde azul, óleo e aquarela
um rio sou eu e um rio é ela
o rio eu sigo e o rio eu, segue
e o fluxo flui por onde é possível fluir.

Seu caminho o rio não decide
o caminho decide o rio e decide onde e decide quando.
Eu passo por onde ela passa e ela flui por onde eu fluí
mas nem eu decidi nem ela assentiu
minhas lágrimas descrevem as imperfeições do meu rosto
e meus passos descrevem o caminho do mar.

O amor ama onde é possível amar
e meu eu não ama nem pensa nem fala nem é.
Eu fluo ininterrupto insípido incolor
ela flui em mim e eu escorro das erosões que ela deixa
e fluímos os dois eternamente em paralelo
dois paralelos que se encontram no infinito.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Suçuarana

Quem te vê, meu puma, no frio do capricórnio
não indaga se teu sangue ainda ferve.
É filha dos Andes, neta do bronze, irmã da lua.
É o ouro que reluz, teus olhos à espreita
caçadora noturna que fareja o rastro do meu sangue na neve.

Orelhas aguçadas de pantera americana
ouvem meus tropeços
vi teus olhos, pantera, brilharem na noite.
Vi teus lábios de suçuarana, triste felina.

Vi tal fera que sofria o frio de junho,
mas não sofre a noite quem tem a lua por irmã.
Eu não te disse, pantera, mas sou gato noturno também
e fui teu sincero amante àquela lua.

Te vi, suçuarana, e você também me viu.
Vi teus olhos, pantera, brilharem na noite
vi teu lábio tal, a mais triste felina.
Não disse palavra.

A Chuva

Quando ninguém te vê se aprende o que é ser invisível.
A culpa é dos olhos que não veem ou do ser que não é visto?
Não contente em ser garoa aprende a ser chuva
aprende a trovoar mas ninguém ouve.
Todos sentem a chuva
ninguém indaga se a chuva os sente.

Cada qual é em si o universo e no universo é impossível estar sozinho
mas o universo está sozinho.
Não há ar que adentre a vermelhidão de seus pulmões
não há deus a lhe dar misericórdia.

E se cai do céu a chuva como milagroso maná
e meus poros exalam o odor da solidão,
eu sorrio
a solidão nada mais é que ter consciência da própria consciência.

O Sótão

No fundo de meu crânio sob a sordidez de meu escalpo eu te guardo nos sótãos da memória.
Quinto andar, sem elevador.
Te deram corda, você quis morrer. Você quis se enforcar.
Não morreu e agora habita no sótão da memória.

Amar é um verbo intransitivo e o amor é um pássaro rebelde, como disse Bizet.
Si je t'aime, prends guard à toi.
Olhar de esguelha você me deu. Você quis morrer.
Não se lembra mais da primeira vez? Queria dizer, não podia dizer, disse
eu te amo
eu te amava.

A poeira e toda a tralha acumulada nunca te incomodaram.
Você vive o sótão e fez amizade com os ratos e as baratas. Você ainda quer morrer?
A você e à sua memória dediquei meu texto em prosa
A menina que queria morrer
nunca o escrevi.

E eventualmente te visito, te trago lembranças de sua morte. Você não morreu mas quis morrer. Você, a célebre habitante do sótão nos fundos de meu crânio.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Flor de Lótus

Deus escreve certo em linhas tortas e em línguas mortas
e em sânscrito escreveu a felicidade de teu destino.
Para cada milênio de nasceres do sol do oriente um segundo de suspiros amorosos.
E por quem? pelo olhar brando e dentes brancos de qualquer Lakshmi.

Eu te vejo sobre a fonte de ouro, te vejo os dois elefantes, teus olhos de fortuna e teu hálito de pureza.
Eu te vejo a flor de lótus.
Vejo os dedos de Brahma traçando constelações em tuas costas.
Eu te imagino a flor de lótus.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Je te Veux

Quem é que lê poesia de parede?
É muito fácil aglomerar palavras parecidas e fazê-las rimar
mas quem é que as lê?
Sob o viaduto escrevo uma mensagem e espero que ela leia
mas quem é que lê?
Poesia é coisa de fundo do poço.

Cantarolo notas de piano e dedilho o marcador
me recordo das gymnopédies e das gnossiennes de Satie
e escrevo na parede para que ela saiba
as palavras "je te veux"
ela talvez as veja
ela não fala francês.

Que seus olhos decifrem cada letra intraduzível
cada verso de ópera italiana
libiamo ne' lieti calici
que ela entenda que eu sofro
sofro pouco, sofro às vezes
quando a pintura à óleo de cores frias dos firmamentos do domo do céu noturno e as luzes da cidade mostram suas faces
eu então sofro por ela.

Mas sua alma é pura demais para toda essa Sodoma mental
de paixão instantânea, momentânea e eterna
por isso quero que ela veja, mas que não entenda
as palavras francesas
je te veux.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

A Megera

O desejo é uma megera indômita,
é uma puta indomável
que repousava em teu ventre.

Que curvas não delineavam tal horizonte suntuoso,
que alma não guardava o mistério da derme.
Sabe o tempo o dispêndio do desejo,
o tempo efêmero que escorre sob os olhos que admiram.

É a corrente, a chibata,
a caligrafia que escreve meu destino em tua pele;
meu martírio momentâneo
a cruz de palha que carrego.

E você, cândida e impura
que nem perante a Deus se curva
e lhe desafia os limites da criação.
O sol sabe quando deve se pôr,
você não se põe nunca.

Tal que nenhuma penumbra se veja,
nem sombra que não fosse a tua
pensasse em se opor à escuridão,
de baixo eu te vejo, ominosa e grandiosa
mas eu sou pequeno
eu sou minúsculo.