segunda-feira, 19 de agosto de 2019

O Sótão

No fundo de meu crânio sob a sordidez de meu escalpo eu te guardo nos sótãos da memória.
Quinto andar, sem elevador.
Te deram corda, você quis morrer. Você quis se enforcar.
Não morreu e agora habita no sótão da memória.

Amar é um verbo intransitivo e o amor é um pássaro rebelde, como disse Bizet.
Si je t'aime, prends guard à toi.
Olhar de esguelha você me deu. Você quis morrer.
Não se lembra mais da primeira vez? Queria dizer, não podia dizer, disse
eu te amo
eu te amava.

A poeira e toda a tralha acumulada nunca te incomodaram.
Você vive o sótão e fez amizade com os ratos e as baratas. Você ainda quer morrer?
A você e à sua memória dediquei meu texto em prosa
A menina que queria morrer
nunca o escrevi.

E eventualmente te visito, te trago lembranças de sua morte. Você não morreu mas quis morrer. Você, a célebre habitante do sótão nos fundos de meu crânio.

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