segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Suçuarana

Quem te vê, meu puma, no frio do capricórnio
não indaga se teu sangue ainda ferve.
É filha dos Andes, neta do bronze, irmã da lua.
É o ouro que reluz, teus olhos à espreita
caçadora noturna que fareja o rastro do meu sangue na neve.

Orelhas aguçadas de pantera americana
ouvem meus tropeços
vi teus olhos, pantera, brilharem na noite.
Vi teus lábios de suçuarana, triste felina.

Vi tal fera que sofria o frio de junho,
mas não sofre a noite quem tem a lua por irmã.
Eu não te disse, pantera, mas sou gato noturno também
e fui teu sincero amante àquela lua.

Te vi, suçuarana, e você também me viu.
Vi teus olhos, pantera, brilharem na noite
vi teu lábio tal, a mais triste felina.
Não disse palavra.

A Chuva

Quando ninguém te vê se aprende o que é ser invisível.
A culpa é dos olhos que não veem ou do ser que não é visto?
Não contente em ser garoa aprende a ser chuva
aprende a trovoar mas ninguém ouve.
Todos sentem a chuva
ninguém indaga se a chuva os sente.

Cada qual é em si o universo e no universo é impossível estar sozinho
mas o universo está sozinho.
Não há ar que adentre a vermelhidão de seus pulmões
não há deus a lhe dar misericórdia.

E se cai do céu a chuva como milagroso maná
e meus poros exalam o odor da solidão,
eu sorrio
a solidão nada mais é que ter consciência da própria consciência.

O Sótão

No fundo de meu crânio sob a sordidez de meu escalpo eu te guardo nos sótãos da memória.
Quinto andar, sem elevador.
Te deram corda, você quis morrer. Você quis se enforcar.
Não morreu e agora habita no sótão da memória.

Amar é um verbo intransitivo e o amor é um pássaro rebelde, como disse Bizet.
Si je t'aime, prends guard à toi.
Olhar de esguelha você me deu. Você quis morrer.
Não se lembra mais da primeira vez? Queria dizer, não podia dizer, disse
eu te amo
eu te amava.

A poeira e toda a tralha acumulada nunca te incomodaram.
Você vive o sótão e fez amizade com os ratos e as baratas. Você ainda quer morrer?
A você e à sua memória dediquei meu texto em prosa
A menina que queria morrer
nunca o escrevi.

E eventualmente te visito, te trago lembranças de sua morte. Você não morreu mas quis morrer. Você, a célebre habitante do sótão nos fundos de meu crânio.