sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Deus Me Disse Antes de Morrer

Deus me disse antes de morrer:
"Vai, meu filho bastardo,
vive cada dia teu como se fosse o primeiro,
respira nervoso, à tua maneira imprudente;
esquece a ti mesmo, com tua calma inconsequente,
deixa-me constrangido de ter te criado."

Deus não mais me diz nada;
apenas as propagandas no rádio,
as lágrimas da noite escorrendo no vidro,
as pernas e os guarda-chuvas,
os faróis e os carros solitários.

Deus não mais me ouve;
ninguém me ouve, aliás,
apenas me escutam.

Ai de mim, sem fé, sem deus...
Nunca gostei de ser a vítima;
Deus sempre gostou de ser a vítima.

Vós padres e pastores,
para mim sempre fostes apenas sapos
que coaxam nas águas escuras;
que nunca soubestes que são rasas.

Vós crentes e fiéis;
para mim sempre fostes apenas ovelhas,
um rebanho que segue alegremente
às portas do matadouro.

E, enfim;
vim a ser o pai renegado,
as paredes do ventre,
que deram à luz
o filho que nunca tive.

Vim a ser a dor passageira
no coração partido
da amante que nunca tive.

E, por sorte,
de um ventre saí eu;
no pecado nasci,
no pecado morrerei.

Hei de cair um dia, enfim,
como as muralhas da terra prometida;
do pó vim,
e ao pó retornarei.

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