segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Estátua

Rachaduras, pichações
dedos quebrados, buracos
merda de pombo
eu sou uma efígie sem valor
que sonhava ser esculpida em mármore
eu sou um anjo caído entalhado em pedra-sabão.

Sou moradia de insetos noturnos
de aranhas, vermes e larvas
eu sou o toque áspero que, com força, corta a pele
eu sou uma figura esquecida montada num cavalo sem glória
minha espada esfarela na bainha.

Meus olhos pairam sozinhos sobre a praça
assombrações de uma existência sem razão
as memórias de um escultor sem nome
as rachaduras cada vez maiores em minhas fundações
todas me forçam a mexer
mas eu não me mexo
eu permaneço sem vida.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Manuel

Manuel desceu da caravela
nunca em toda Europa se vira terra tão bela
pisou no rabo da onça
cobriu a vergonha do índio
e pediu a Sebastião
que pedisse a Joaquim
que pedisse a Pero Vaz
"descreva a teta da índia".

O índio deu tucano
deu ouro e deu arara
Manuel deu pente, deu espelho
deu gripe e deu varíola.

O europeu, Seu Manuel
arrancou seu pau-brasil
atirou no guarani
deu filho pra morena
trouxe na coleira o preto matuto
botou o rei do congado pra catar cana-de-açúcar

Satisfeito, Manuel se ajoelhou ao pé da cruz
cumpriu missão divina de senhor Seu Jesus Cristo
padre deu a bênção
Manuel é bom cristão.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Céu do Sul

Para Pâmela Oliveira

Seu casaquinho vermelho de lã
o velho vestido e o velho encanto
se lembra?
faz tanto tempo...

Por mais breves que sejam,
os anos não perdoam ninguém.
Engorda-se, emagrece-se e engorda-se de novo
briga-se, separa-se, reata-se e briga-se de novo.
Os anos vendem as crises
e nós as compramos sem saber

Até que a morte os separe, diz o amor
mas a morte nos separou tantas vezes
que surpreende-me estar vivo.

O amor está longe de ser perfeito
e mais longe ainda de trazer felicidade.
É, de fato, a esperança de que quando cair o pano
a plateia não aplauda sua tragédia
mas que ria da comédia
e que chore comovida sua paixão.

É o amontoado de metáforas místicas
sobres seus neurônios e seu miocárdio.
As minhas eu lhe daria, mas você os roubou de mim
naquele banco sujo de terra
e infestado de mosquitos
sob a redoma prateada do céu do sul.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Sofre o Homem

Sofre o homem da saudade ingrata
da terra, da pátria, da mulher amada
da infância querida, da mãe falecida
o veneno rijo do tempo não traz,
apenas leva.

Sofre o homem da doença impiedosa
da gripe, do câncer, da pneumonia
cirrose, linfoma e anemia
e o que não mata traz a dor
da existência contínua.

Sofre o homem da dor ininterupta
da cabeça aos pés às pernas
de ser, de estar, de ter
e de não ter.

Dor de amor, dor de alma, dor de dente
dor por dor, é tudo o mesmo.
O que não sofre o homem
já sofreu ou ainda sofrerá.
Todo homem tem saudade,
todo homem dói,
todo homem é doente.

O mundo sofre o homem
e o homem sofre o mundo.

Oxum

Oxum, banhada a ouro
batia tambor, batia atabaque
brilhava de jóias, brilhava de olhos
vestida de branco, banhada de ouro,
que linda, Oxum.

Não a rainha dos rios
e mãe das cachoeiras
do panteão da umbanda.

Minha Oxum é menina pálida
de cabelos cróceos e olhos fluviais
deusa-moça de pureza
que batuca, canta e gira
no romper da madrugada.

Eu vi Oxum mas Oxum não me viu,
não sou espírito digno de grandeza.
Em sua pureza, coberta de ouro, ela cantava
e não vi outro rosto senão aquele,
e não ouvi outra voz senão aquela,
e outro pensamento não me permeava senão aquele:
que linda, Oxum.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Página Vazia

Meus pensamentos em você são vazios
são beijos vazios
banhados a bebida e cigarro
e como cigarro, jogados,
pisados e apagados.

Beijos jogados, pisados e apagados
nas pedras do Largo,
ao lado das putas, dos bêbados
e dos mendigos.

Sobre o palco dos jovens perdidos,
dos fumantes, maconheiros,
traficantes indiscretos
e todos os vícios da classe média;
sob os olhos dos adolescentes ébrios
e dos punks anarquistas
meus olhos te juraram amor eterno.

Te decifraram um vazio eterno.
E um vazio, mas sincero elogio proferi:
com certeza é a guria
mais bonita que já vi.

E tudo isso é vazio.
Numa folha vazia, despejo sua lembrança.

Mas se numa folha vazia
eu empilho palavras vazias
ela continua vazia?

Se assim for, a você,
e à lembrança de nosso breve momento
eu dedico esta página vazia.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Marrom

Que ausência de sentido,
que bobo meu sorriso.
Uma vida sem poder te ver seria
um grande desperdício de vida.

Não tenho voz, tenho um rosto;
não tenho modos, escrevo versos.
Os velhos protestos das mesmas velhas paixões.
As velhas manchas nos velhos colchões.
Novos dias, novos modos, novos tempos.

Mesmos velhos vícios.
Marcas de copos, dores de cabeça,
os restos de tabaco em meu bolso,
meus medos cândidos,
dissolvem-se na bulha castanha de seus olhos.

As feições mais delicadas,
mais dissimuladas,
mais puras
a causar balanços
no torpor e na negritude de minha alma.

Sorte é poder estar vivo
no mesmo espaço e tempo,
na mesma hora, minuto e segundo
e olhar na direção exata
para te ver sorrindo.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

A Melhor Parte

Tentei viver sem meu coração,
mas no buraco que ficou
batia uma agonia tamanha
que cogitava a própria morte.

Tentei viver sem meus olhos,
mas mesmo com meus olhos fora das órbitas,
eu ainda via o que sempre vi.

Tentei viver sem meus ouvidos,
mas a mesma voz ecoava;
o mesmo choro amargo
eu ainda ouvia.

Tentei viver sem você,
mas em vão.
Tentar viver sem você
é tentar viver sem a melhor parte de mim.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Da Insônia

Foi como um sonho lúcido;
a neblina, a tentação, as memórias de alcova,
um grito subconsciente,
mas não era um sonho.
Há muito que não sonho,
pois há muito que não durmo.

Minha caneta seca, parada;
Junta, em torno de si, poeira;
os fetos abortados dos poemas que nunca escrevi.
Todos os versos sem rima que morreram
antes de nascer.
Há muito que não escrevo,
pois nada mais me inspira.

Mas alguma coisa aconteceu
que me fez assoprar a poeira
e sonhar novamente.

Meu coração dói, mas dói com esperança.
A esperança de um novo amor
cresce no terreno baldio sujo,
no solo quebradiço e seco,
onde nada mais crescia.

E se essa semente agora brota,
cultivarei-a na várzea mais fértil de minha alma
para que, enquanto for eu vivo,
ela jamais feneça.

sábado, 31 de março de 2018

O Pássaro

Para uma desconhecida

Eu contemplava a vista da floresta densa de concreto
quando te vi graciosamente pousar num galho.
Parei, então, para te admirar.

De binóculos aos olhos, eu espiava.
Você batia as asas com a graça que lhe tinha cada gesto,
e suas penas brincavam com a espontaneidade que tem o sol
em se levantar todos os dias.
Eu estava fascinado.

De todos os anos que passei
a observar, estudar e catalogar
todo pássaro que achava,
você era um dos mais belos a me roubar a atenção.

E eu estava longe, tão longe,
que nem cheguei a ouvir seu canto.
Tive medo de que, se eu me aproximasse,
você logo voaria, assustada.
O assustado era eu.

Como eu internamente desejava que você pousasse em meu dedo,
que cantasse para mim,
que me deixasse admirar...
Azar!

Você que talvez não queria ser admirada,
ou eu que esperei demais para tentar.
Você voou embora e me deixou imaginando
com que notas você compõe seu canto.

domingo, 25 de março de 2018

Poesia da Mulher Idealizada

Em meus sonhos criei você
e te pintei como um retrato.
Para o cabelo, escolhi a mais negra
tonalidade de marrom,
e para os olhos,
a mesma.
E sua pele, tão branca,
como se não a tivesse sequer pintado.

Seu cabelo, primeiro, deixei comprido.
Não combinou.
Cortei-os à altura das bochechas
e podei-lhe uma franja.

Ditei-lhe seus interesses,
moldei seus ouvidos para que ouvissem
a música que eu escolhesse.
Ensinei-lhe línguas.
Inglês, francês,
até italiano.

Ensinei-lhe a ler
para que devorasse todo e cada livro
de minha estante.
Ensinei-lhe música,
para que seu piano e meu violão
acompanhassem nossa voz.

E aprendi a te amar.
Mesmo sem te conhecer,
eu te esperava.
Mesmo quando meu amor
estava no presente.

Até que encontrei você.
Sem saber se sonhava,
me aproximei.
Pedi para que fosse comigo
aos limites do universo.

E você, então, me respondeu
na calma e doce voz que eu lhe dei:
"Eu sou sua mulher perfeita.
Fui construída à imagem e semelhança
de sua melhor parte.
Tenho em mim
tudo o que você quis,
tudo o que você quer
e tudo o que você quererá,
mas eu sou um sonho.
Eu sou seu sonho,
e seu sonho não existe."

E então, eu volto a dormir
e procuro em mim outro sonho.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Quem Ama Não Pensa

Seria amar, instinto,
ou consequência do pecado da carne?
Eu não saberia, estava bêbado,
e quem ama não pensa.

Eu não pensava, estava bêbado;
e, se fosse nos enclausurar a culpa
de princípios de adultério,
que assim fosse.
A noite era imensa,
nosso amor era imenso,
e quem ama não pensa.

Minha boca talvez exalasse
o odor nauseante de aguardente;
a noite que se construía
de cachaça, cerveja, álcool como fosse,
privou-nos de pensamento, e, com efeito,
não pensa, quem ama.

E a manhã também foi imensa;
como quem acorda de um sonho pecaminoso,
acordei ainda sonhando.
Creio que nem cheguei a dormir.
O peso da noite ébria
ainda me tonteava a cabeça.
Mas eu ainda não pensava,
e quem não pensa, ama.

Decorreu, desta forma, a madrugada;
o amor que ali, consumou-se novamente,
dali será, eternamente.
Então eu soube, estava sóbrio;
eu sabia, mas não pensava.
Quem ama não pensa, e
naquela noite,
quem amava éramos nós.

terça-feira, 13 de março de 2018

Outro Poema

Para Larissa Destri

Minha mão não desenha, apenas escreve;
então te escrevo novamente:
meu ofício apenas te descreve,
mas não representa fielmente.

Minha caligrafia arrojada
não faz justiça à tua grandeza;
melhor seria se pintada
e exibida com realeza.

Ou ainda, te esculpiria o corpo cândido
no mais branco mármore que encontrasse,
te moldaria com meu martelo râncido
para que o mundo todo admirasse.

E faria o mundo tomar conhecimento
da musa que habita em meu sistema;
mas como não tenho tanto talento,
eu te escrevo outro poema.

terça-feira, 6 de março de 2018

Esta Noite Falei Com Deus

Para Larissa Destri

Esta noite falei com Deus,
e perguntei-lhe se não sentia a falta
de um anjo no céu.
E Deus, então, me respondeu
que o anjo que lá faltava
agora dedicava a vida
à minha guarda.

Lembrei, então, a Deus
o quanto o céu ficaria vazio
sem o meu anjo enviado
para iluminá-lo.
E disse-me o Senhor
que minha amada
luze o suficiente
para iluminar tanto o céu
quanto a terra.

E, por fim, Deus me antecipou
que, de todos os seus filhos,
o mais afortunado era eu; pois
dos mesmos átomos que compõe
às estrelas, aos planetas e a mim,
ordenaram-se de tal forma
a conceber a ela.

Deus, então, se foi;
não tardei em agradecer.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Soneto do Amor Futuro

O que se pode de um amor esperar,
entregarei-te aos pés por toda vida;
até que enfim estejas decidida
à promessa de tua alma proclamar.

Toda emoção que eu fizer sentida,
será inevitável após te amar;
e toda canção que puder eu te cantar
será minha alegria ser ouvida.

Em ser sozinho, meu pranto se declara,
em tua falta, meu corpo se estranha,
e em teu caminho, meu andar se para.

Como quem espera mar levar montanha,
espero teu abraço que me ampara;
espero com impaciência tamanha.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Soneto da Espera

Eu aguardo com primor o tenro dia
que encontra a vida minha a tua;
e não preciso mais que a luz da lua
a luzir no céu da noite que seguia.

Quero ouvir a cada palavra crua
despertar da doce voz que as diria;
e lá dar-te minha mão que tocaria
a juventude de tua fronte nua.

E que eu possa deitar-te em meu peito
a beijar-te com cobiça e desejo,
amar-te com luxúria em meu leito.

E quando teu olhar brilhar num lampejo,
estarei lá para sentir o efeito;
por ora, apenas sonho e almejo.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Da Fome Carnal II

Desejo, de súbito
meus olhos te despem
te dominam
te devoram.

Minha vontade lhe come a veste
e lhe tira o sossego
sem que você perceba
que está nua.

E você enfim é fogo
que se consome em minha mente
e se consuma
em fome carnal.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Água

Este poema é água
transparente
insípido
incolor
sem gosto.

Este poema
é dois terços de meu corpo
é um terço de meu copo
este poema
é hidrogênio
é oxigênio.

Este poema
está engarrafado
este poema escapa
e goteja

goteja

goteja.

Do calor de minha insônia
este poema evapora
do frio de meu sono
este poema
congela.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Macumba de Macunaíma

Ferro que passa
flor que cheira
lábio que beija
peixe que nada
ave que voa.

Flor que passa
lábio que cheira
ferro que beija
ave que nada
peixe que voa.

Cuia de aço
panela de ferro
ave que passa
verão de andorinha
pai da mata.

Cachaça de cana
flor de goiaba
pena de índio
cajado de Oxóssi
pai de andorinha.

Cuia de cana
ave de aço
flecha que mata
machado que corta
cachaça que cheira.

Mendigo de rua
planta de vaso
peixe da mata
mala de couro
pena que passa.

Ave de couro
roda de ferro
macumba de rua
lua de poça
andorinha de ave.

Passo de ferro
cheiro de flor
beijo de lábio
nado de peixe
voo de ave.

domingo, 28 de janeiro de 2018

As Flores

Eu me abriguei à sua sombra;
você, que já era uma flor alta,
deu-me amparo para que eu crescesse.

E você, em sua forma de hibisco lilás,
me protegeu da chuva e me deu espaço ao sol.
Você que já estava a florescer
quando minha semente foi plantada.

Você me apresentou às abelhas,
às borboletas,
aos beija-flores,
e a todos os outros animais
que carregam nosso pólen.

Você me deu espaço no solo,
compartilhou comigo as minhocas e o húmus
que te fizeram crescer.

E lá nós crescemos,
à beira da nossa araucária favorita.
Chegávamos cada vez mais perto
do manto cinza do céu.

Mas agora, o acaso te colheu
e te levou para crescer em outro jardim,
e eu, flor da cidade,
pintada pela natureza em tonalidades mórbidas de azul,
terei de aprender a crescer sozinho.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Espelho

Para Pâmela Oliveira

Seu reflexo se despedaçou no espelho
e o espelho despedaçou-se no chão,
mas você ainda está inteira.

Não ache que você não tem lugar neste mundo;
a imensidão do mundo é que não tem lugar
dentro da imensidão maior de tua alma.

Não pense que ninguém te ama;
você apenas não enxerga
os rios flamejantes e rubros
que correm no teu coração.

E se for a solidão o seu temor,
lhe peço então que me pendure
na parede do seu quarto.

O te amar será o reflexo
e eu serei o espelho.